Self talk
Paulo Roberto Sampaio

OUSADIA , RESPONSABILIDADE E ATITUDE

Expressão americana que quer dizer: “conversa com você mesmo”.

Neste artigo eu gostaria de falar especialmente para os mais jovens. Há algum tempo eu quis fazer rappel - descer uma montanha em negativo, pendurado como uma aranha em uma corda. Meu filho, Paulinho, fez o curso de rappel com pessoas especializadas. Conhecendo todas as técnicas de segurança, ele me incentivou, informando sobre os equipamentos, que eram novos e seguros, podendo suportar até 50 vezes o peso do esportista. Apresentou-me o boldrier, uma espécie de cadeirinha feita com material especial, impermeável, resistente (utilizado por astronautas e pára-quedistas, pois são materiais desenvolvidos pela NASA e aprovados pelo Pentágono) além de diversas outras informações, até me convenceu: vendeu a idéia de que era seguro. “Tudo bem! Vou descer aqui da laje de casa, que tem 3 metros de altura”. Arranhei o joelho, mas desci. Depois fomos para uma pequena rocha na praia de Itaoca, no Espírito Santo. Lá utilizamos a corda, o boldrier, o freio oito, o mosquetão, luvas e capacete. Desci como se estivesse escalando uma montanha: andando de costas, morro abaixo. Foi tranqüilo, não vi graça nenhuma e não senti prazer. A etapa seguinte foi a Cachoeira Índio, em Rio Acima – uma cidade próxima a Belo Horizonte. Levamos toda a parafernália: cordas elásticas, capacete, luvas, e claro, a filmadora e a máquina fotográfica, para registrar tudo. Lá fomos nós. Subimos a montanha a pé por alguns despenhadeiros, trilhas e matas. Lá em cima os cinco ‘especialistas’ escolheram algumas árvores, para que seus troncos fizessem a chamada ancoragem. Explicavam-me tudo: “Isto é muito importante, pois esta é a base que vai garantir todo o esforço das cordas no momento da descida”. Cada etapa foi feita e revisada por eles. A corda foi descendo, eu respirei fundo e quis olhar a altura que desceríamos. Quando olhei lá para baixo, deparei com aquela altura equivalente a um prédio de 25 andares. Eles me deram a última aula: agora não era mais descida no seco. O nome da modalidade é canyoning, que envolve a água forte e gelada da cachoeira, o lodo escorregadio das rochas lisas, o que exige mais perícia. O primeiro obstáculo era um negativo – ficaríamos como morcegos, pendurados de cabeça para baixo. Nesse momento percebi que era hora de ter era uma conversa séria comigo – um self talk. “Paulo Roberto, você não está preparado para esta aventura. Primeiro, olhe para você. Seu peso está acima do normal, e uma conseqüência disso são seus músculos que estão sem agilidade. Isto não é para você. Saia fora! Parece uma brincadeira, mas é muito radical”. As informações foram levadas até o tribunal de minha consciência, e em fração de segundos houve um julgamento. Todos os prós e contras foram avalizados, e então, o veredicto: “NÃO VOU DESCER! Não estou em condições para isso”. “Mas você é medroso. Veja, até algumas mulheres estão descendo”. Pensei: “Ah, se elas fossem mais medrosas...”, “Só porque as mulheres estão descendo, eu vou ter que descer?” A resposta: “Vamos. É seguro. Pode vir, eu desço do seu lado... é muito bom!”.
Não sei se você já passou por isto, mas te garanto que foi frustrante ouvir meu filho adolescente, a quem eu ensinei a andar, estimulei a aprender a andar de bicicleta, dizer aquelas coisas para mim. Quantas vezes corri na orla do Mineirão atrás de sua bicicleta com rodinhas adicionais (que auxiliavam no equilíbrio). As crianças gritando: “Vai, Paulinho, pedala!!!” - até chegar o dia de tirar a primeira rodinha. O equilíbrio e a coragem aumentavam e logo ele já estava andando de bicicleta para todo lado, apenas com as duas rodas principais. Anos depois eu me encontro em cima de uma cachoeira, no topo de uma montanha, me acovardando de terror e meu filho me incentivando a aventurar. Mas eu disse: “Não!!! Não vou descer”, e saí da beirada, onde a água precipitava. “Outro dia eu desço”.
Um sentimento temporário de derrota apossou-se de mim. Desci pela trilha e me contentei em tirar fotos e filmar a descida dos outros. Podia ver uma mistura de adrenalina com endorfina que fazia os olhos deles brilharem. Pensei: “Como podem chamar isto de esporte? O que torna o esporte mais atraente e excitante? Prazeroso de praticar?".
Vencer obstáculos como cachoeiras, paredões, abismos, pontes, declives, explorando grutas e cavernas, agora está sendo praticado como diversão. Na descida pode-se balançar e fazer várias manobras. Estas técnicas começaram a ser usadas nos desfiladeiros e rios da cadeia de montanhas que separa o norte da Espanha do sul da França, pelos estudiosos de espeleologia (estudo da formação e constituição de grutas e cavernas naturais). Eles não deviam imaginar que estavam criando um esporte. Antes de continuar falando da minha experiência com o rappel, quero lembrar que muitos acidentes fatais já aconteceram em modalidades radicais simplesmente porque as pessoas eram "corajosas". Muitos confundem coragem com irresponsabilidade.
Na fase da adolescência a irresponsabilidade é uma característica muito atuante. Existe uma forte vontade de afirmação no grupo. Por isso os jovens comentem atos de irresponsabilidade, para provar que não têm medo, que são bons. Assim aprendem coisas negativas para o resto da vida, como os vícios de fumar e beber, por exemplo. É importante saber que o corajoso não diz "sim" quando sua consciência (ou razão) diz "não". Por exemplo, tomar um suco quando todos estão bebendo cerveja.
Não há dúvidas de que a mídia explora esta abertura dada pela mente jovem. Ela explora naturalmente todos os ângulos que podem seduzir o jovem e induzi-lo a provar sua coragem. Os meninos são estimulados a provarem a masculinidade no ato de dirigir um carro com o pé no fundo do acelerador, como se a idade adulta estivesse isenta de responsabilidade e restrições.
No mundo cintilante e maravilhoso dos anúncios publicitários não aparece a menor sugestão de perigo, por isso é importante que todas as crianças aprendam a tomar decisões e a avaliar perigos. Um estudo realizado pela Associação Americana de Saúde publicou uma previsão de que dois milhões de crianças que estão hoje na idade escolar morrerão de câncer no pulmão daqui há 50 anos. Porém, o maravilhoso e brilhante mundo que é pintado nos anúncios de cigarros não mostra que existe alguém realmente preocupado em fazer alguma coisa para evitar esta destruição.
Na realidade não é nenhum segredo, nem para o Governo, nem para os fabricantes, que os jovens adotam sua decisão básica para todos os vícios e hábitos de vida antes dos 17 anos, Aprenda a dizer NÃO, quando todos os seus amigos estão dizendo "sim". Aprenda a ter estratégia e a pautar sua vida em princípios inteligentes que visam preservar seu maior patrimônio – o seu corpo. Busque adrenalina positiva, aquela que impulsiona os esportes são, sem dúvida, agentes estimulantes na produção de hormônios protetores do organismo: os linfócitos T. Mas temos que nos acostumar a ter precauções com a segurança.
Pare de querer bancar o super-herói. Acorde! Você é mortal. Todos os dias morrem jovens por pura irresponsabilidade em acidentes de trânsito, nos esportes radicais, sem falar os que se suicidam ‘à prestação’, embalados por ‘viagens’ químicas, querendo provar ao mundo que são donos de sua vida. Você não precisa provar para ninguém, a não ser para você mesmo, que você é poderoso e que sabe dominar a si próprio.
O bilionário Bill Gates foi convidado a dar uma palestra para estudantes em uma escola americana. Ele falou durante 12 minutos, foi aplaudido por 15 minutos, depois entrou no seu helicóptero a jato e foi embora. Mas deixou alguns "grãos de areia" que provavelmente serão transformados em agentes geradores de pérolas na vida de algumas daquelas mentes jovens.
Em resumo, o que ele disse àqueles estudantes adolescentes foi:  A vida não é um mar de rosas. Acostume-se a isso!  O mundo não está preocupado com sua auto-estima, mas está esperando que você faça alguma coisa útil por ele antes de sentir-se bem consigo mesmo.  Você não ganhará um super salário assim que receber seu diploma. Não será diretor de uma empresa, com carro e telefone à disposição, antes que você tenha provado seu valor ou conseguido comprar seu próprio carro.  Se você acha seu professor um chato exigente, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.  Vender coisas ou trabalhar em um emprego "simples" nas horas em que você não está estudando, não está abaixo de sua posição social. Seus avós devem ter uma palavra diferente para isso, eles devem chamar essa situação de oportunidade (sorte).  Se você fracassar, não será culpa de seus pais. Não lamente seus erros. Aprenda com eles!  Antes de você nascer, seus pais não eram chatos como agora. Eles ficaram assim por pagar suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são "ridículos". Então, antes de você salvar o planeta para a próxima geração tentando consertar os erros da geração de seus pais, tente limpar o seu quarto e lavar umas vasilhas do almoço.  Na escola você terá muitas chances, mas na vida real não é assim. Se você pisar na bola uma vez, será despedido. Rua!!!  Portanto, acostume-se a fazer o que é certo da primeira vez. A vida não é dividida em semestres. Você não terá férias livres para sempre, e é pouco provável que os seus colegas de trabalho o ajudem a fazer seu "dever", ou cumprir suas tarefas no fim de cada período.  Televisão não é vida real na vida real. As pessoas de sucesso têm que deixar as baladas, o barzinho e a boate para trabalharem.  Seja legal com os "Caxias" de sua turma (aqueles estudantes muito dedicados, que os demais julgam ‘idiotas’) Existe uma grande possibilidade de você futuramente trabalhar para um deles. Pense nisso! Esta é uma aula que nenhuma escola vai te ensinar. Planeje uma estratégia para sua vida. É claro, escolha algo para focalizar: quem sabe uma montanha só sua, para você subir. Ou uma cachoeira pra descer,Talvez esta seja uma boa hora para um self talk.

VOLTANDO AQUELA CACHOEIRA, QUERO DIZER ALGUM TEMPO DEPOIS ESTIVE NOVAMENTE LÁ BEM PREPARADO,depois de muitas conversas comigo mesmo E PUDE SENTIR O PRAZER DA VITÓRIA AO DESCER AQUELA CACHOEIRA ,